{"id":158593,"date":"2023-08-31T15:51:25","date_gmt":"2023-08-31T18:51:25","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cronicasdeitarantim.com.br\/v1\/?p=158593"},"modified":"2023-08-31T15:51:25","modified_gmt":"2023-08-31T18:51:25","slug":"vidas-marcadas-numero-de-feminicidios-sobe-na-bahia-mas-apenas-1-a-cada-9-homens-denunciados-e-punido","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cronicasdeitarantim.com.br\/v1\/2023\/08\/31\/vidas-marcadas-numero-de-feminicidios-sobe-na-bahia-mas-apenas-1-a-cada-9-homens-denunciados-e-punido\/","title":{"rendered":"Vidas Marcadas: N\u00famero de feminic\u00eddios sobe na Bahia, mas apenas 1 a cada 9 homens denunciados \u00e9 punido"},"content":{"rendered":"<div class=\"styles__Body-sc-1ffquwr-7 ePhtZb\">\n<p>Simone, Adriele, Carla, Andr\u00e9ia, Natalina, Ot\u00e1via e ao menos 50 outras mulheres. Todas tiveram, em algum momento, desenhados em seus corpos uma esp\u00e9cie de alvo para o feminic\u00eddio. Perderam a vida. Para o machismo, para a viol\u00eancia, para ex-companheiros cru\u00e9is e raivosos. Ex-maridos e namorados que sabe-se l\u00e1 quando, como e ainda \u201cse\u201d ser\u00e3o responsabilizados.<\/p>\n<p>Mesmo ap\u00f3s suas mortes, as mulheres enfrentam ainda a crueldade dos n\u00fameros. Eles as reduzem a \u00edndices e esfregam na cara de todos a impunidade. Das 455 den\u00fancias de feminic\u00eddio registradas no Minist\u00e9rio P\u00fablico da Bahia (MP-BA), entre 2020 e o primeiro semestre de 2023, apenas 50 criminosos foram condenados, segundo dados do Tribunal de Justi\u00e7a da Bahia (TJ-BA) disponibilizados ao Jornal Metropole. \u00c9 como se a cada nove feminicidas, apenas um fosse punido. Os outros oito matam e seguem suas vidas.<\/p>\n<p><strong>Rostos, vidas e caminhos cruzados<\/strong><\/p>\n<p>Simone Maria dos Santos era t\u00e9cnica em enfermagem. Trabalhava no Hospital Roberto Santos, tinha dois filhos j\u00e1 adultos e um cachorro. Era considerada generosa, mas reservada. Casada h\u00e1 quase 30 anos, foi morta a pedradas dentro de seu apartamento no bairro da Vila Laura, pelo marido, que &#8211; como a imprensa costuma reduzir &#8211; simplesmente n\u00e3o aceitava o fim do relacionamento.<\/p>\n<p>J\u00e1 Adriele de Almeida Cardoso tinha 36 anos. Era vendedora em um shopping na Avenida Antonio Carlos Magalh\u00e3es, at\u00e9 que a viol\u00eancia e o machismo cruzaram seu caminho. Na ida ao trabalho foi sequestrada, mas n\u00e3o teve sequer o direito de pedido de resgate.\u00a0A recompensa era sua vida. Foi morta dentro de um carro, pelo ex-namorado, mais um que n\u00e3o aceitava o fim do relacionamento. Os corpos foram encontrados na manh\u00e3 do dia seguinte dentro do ve\u00edculo. A suspeita \u00e9 que ele tenha usado a arma do pai, policial militar, para matar Adriele e depois cometer suic\u00eddio.<\/p>\n<p>Um ano mais velha que Adriele, Natalina dos Santos era considerada uma mulher trabalhadora por seus familiares e amigos. M\u00e3e de quatro filhos e moradora do bairro da Liberdade, chegou a se mudar porque o ex-companheiro, com quem viveu um relacionamento de menos de um ano, sabia como entrar no antigo im\u00f3vel. N\u00e3o foi suficiente. Ele arrombou a porta da nova casa e a matou com golpes de faca na frente da filha de tr\u00eas anos. Antes de morrer, Natalina deixou seu \u00faltimo pedido a quem lhe socorria: \u201ccuidem de meus filhos\u201d. Na lista do feminicida, j\u00e1 estava a morte de uma mulher com quem ele teve um filho e do companheiro dela.<\/p>\n<p>O nome de Andr\u00e9ia Maria Pinto da Costa cruza com o de Simone, Adriele e Natalina. Elas n\u00e3o se conheciam, mas juntas se tornaram a representa\u00e7\u00e3o, no corpo, no sangue e nos pedidos por justi\u00e7a, da escalada do feminic\u00eddio na Bahia.<\/p>\n<p>Andr\u00e9ia era m\u00e3e de um filho de 17 anos e personal trainer em uma academia de Porto Seguro, no sul do estado. Vivia o auge dos seus 42 anos, com uma vida inteira pela frente, a n\u00e3o ser pela presen\u00e7a do ex-companheiro, que a perseguia e amea\u00e7ava pedindo dinheiro e reconcilia\u00e7\u00e3o. At\u00e9 que foi encontrada morta, com marcas de disparos de arma de fogo e golpes de faca. O corpo da personal trainer foi abandonado em um terreno da cidade. E nem no seu pr\u00f3prio sepultamento, ela teve paz. O ex-namorado foi preso como principal suspeito ao sair do enterro de Andr\u00e9ia.<\/p>\n<p><strong>Crueldade estampada nos n\u00fameros<\/strong><\/p>\n<p>As hist\u00f3rias n\u00e3o param por aqui. S\u00f3 neste ano, entre janeiro e agosto, foram 55 mulheres mortas no estado. N\u00e3o por uma doen\u00e7a infecciosa ou heredit\u00e1ria, uma imprud\u00eancia no tr\u00e2nsito e nem assalto \u00e0 m\u00e3o armada. Para elas, bastou o fato de ser mulher. E aqui de novo a viol\u00eancia dos homens e dos n\u00fameros: a cada quatro dias uma mulher foi v\u00edtima de feminic\u00eddio na Bahia. A pergunta que fica a todo momento \u00e9 quem ser\u00e1 a pr\u00f3xima v\u00edtima na segunda-feira? E depois, na sexta? Ser\u00e1 uma vizinha, colega de trabalho, amiga, sobrinha ou uma filha?<\/p>\n<p>Um dia, esse \u00edndice j\u00e1 vai ter atravessado o caminho de todos. Afinal, ele vem em uma incessante escalada, pelo menos desde 2020 &#8211; cinco anos depois da promulga\u00e7\u00e3o da lei que alterou C\u00f3digo Penal estabelecendo o feminic\u00eddio como circunst\u00e2ncia qualificadora do crime de homic\u00eddio e incluindo-o no rol dos crimes hediondos.<\/p>\n<p>H\u00e1 tr\u00eas anos, foram 85 den\u00fancias de feminic\u00eddio oferecidas pelo MP- -BA \u00e0 Justi\u00e7a. No ano seguinte, subiu para 116, at\u00e9 chegar em 161 no ano de 2022. De janeiro at\u00e9 aqui, j\u00e1 foram 93 den\u00fancias e apenas 10 condenados no TJ-BA.<\/p>\n<p>Para a coordenadora do N\u00facleo de Enfrentamento \u00e0s Viol\u00eancias de G\u00eanero e em Defesa dos Direitos das Mulheres (Nevid) do MP-BA, Sara Gama, n\u00e3o h\u00e1 estranheza com a discrep\u00e2ncia entre os n\u00fameros de den\u00fancias e condenados. Isso porque h\u00e1 um outro problema por tr\u00e1s disso: a lentid\u00e3o da Justi\u00e7a.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 muito comum que esses processos se arrastem por mais tempo. H\u00e1 uma s\u00e9rie de recursos e estrat\u00e9gias da defesa para que n\u00e3o chegue ao fim t\u00e3o rapidamente\u201d, explica a coordenadora, em entrevista ao\u00a0<strong>Jornal Metropole<\/strong>. Ela pontua ainda que evidentemente a ampla defesa do denunciado deve ser respeitada, mas cobra celeridade na conclus\u00e3o desses casos.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/api.metro1.com.br\/fotos\/noticias\/140452\/mg\/feminic%C3%ADdio%20em%20npumeros%20(1000%C2%A0%C3%97%C2%A0600%C2%A0px).jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p><strong>&#8220;N\u00e3o aceitava o fim&#8221;<\/strong><\/p>\n<p>Assim como aconteceu com Simone, Adriele, Natalina e Andr\u00e9ia, na maioria dos casos, os criminosos s\u00e3o aqueles que j\u00e1 estiveram dentro de casa, j\u00e1 dividiram uma cama e compartilharam uma vida. De acordo com o boletim \u201cElas Vivem\u201d, da Rede de Observat\u00f3rios da Seguran\u00e7a, 75% dos feminic\u00eddios s\u00e3o cometidos por ex-parceiros ou ex-maridos. Homens que, em um dado momento, resolveram que uma briga ou o t\u00e9rmino do relacionamento seria motivo suficiente para p\u00f4r um fim na vida de uma mulher.<\/p>\n<p>Para a advogada e doutora em Estudos Interdisciplinares sobre Mulheres, G\u00eanero e Feminismo, Salete Maria, os n\u00fameros de feminic\u00eddio s\u00e3o cru\u00e9is e, acima de tudo, preocupantes. Um dos estimulantes, de acordo com ela, \u00e9 a sensa\u00e7\u00e3o de impunidade para esses homens. \u201cSomos uma Bahia repleta de desigualdades, favor\u00e1vel \u00e0 a\u00e7\u00e3o dos que acreditam que o crime compensa e dos que percebem que s\u00e3o poucos os casos de feminic\u00eddios que foram a julgamento at\u00e9 agora\u201d, afirma.<\/p>\n<p><strong>O roteiro \u00e9 sempre o mesmo<\/strong><\/p>\n<p>Antes do tiro, da faca ou pedrada, muitas mulheres sofrem epis\u00f3dios de viol\u00eancia. No caso de Simone, por exemplo, vizinhos contaram que o ex-marido dela j\u00e1 havia tentado arremess\u00e1-la da janela. As brigas do casal pareciam um barulho de obra no pr\u00e9dio. Simone n\u00e3o tinha medida protetiva, uma das ferramentas utilizadas para tentar auxiliar na seguran\u00e7a da mulher amea\u00e7ada. De acordo com o Anu\u00e1rio de Seguran\u00e7a P\u00fablica, em 2022 foram concedidas 14.922 medidas no pa\u00eds, um aumento de 9,1% em rela\u00e7\u00e3o ao ano de 2021, quando foram 13.598. Ainda assim, muitas dessas mulheres n\u00e3o se sentem protegidas.<\/p>\n<p>\u201cAs viol\u00eancias t\u00eam car\u00e1ter multifatorial e multidimensional e n\u00e3o d\u00e1 para pensar que somente pol\u00edticas de repress\u00e3o dar\u00e3o conta da problem\u00e1tica, at\u00e9 porque ainda que pol\u00edticas repressivas funcionassem a contento, mesmo assim n\u00e3o teria como evitar os feminic\u00eddios, j\u00e1 que operam ap\u00f3s a sua ocorr\u00eancia. E como j\u00e1 deixam a desejar da forma que est\u00e3o sendo implementadas, \u00e9 preciso que sejam revistas, aprimoradas, monitoradas pela sociedade civil e outros \u00f3rg\u00e3os de controle\u201d, analisa Salete.<\/p>\n<p>O caso de Natalina \u00e9 um exemplo disso. Ela foi morta pelo ex-companheiro que j\u00e1 havia sido preso pelo assassinato da m\u00e3e de seu filho. S\u00f3 a puni\u00e7\u00e3o n\u00e3o resolve. \u00c9 bem verdade, contribui e precisa ser cobrada. Mas sozinha n\u00e3o \u00e9 solu\u00e7\u00e3o. Enxergar o problema apenas como uma falha de conduta pessoal \u00e9 eximir a sociedade e o poder p\u00fablico da responsabilidade. Esses homens podem at\u00e9 passar a ser punidos, mas mulheres ainda ser\u00e3o mortas.<\/p>\n<p><strong>*Reportagem publicada originalmente no <a href=\"https:\/\/api.metro1.com.br\/arquivos\/jornal\/449\/ARQUIVO_JORNAL.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Jornal Metropole<\/a>\u00a0em 31 de agosto de 2023<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"styles__RelatedWrapper-sc-1ffquwr-8 byMLWm\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Simone, Adriele, Carla, Andr\u00e9ia, Natalina, Ot\u00e1via e ao menos 50 outras mulheres. 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