{"id":143754,"date":"2021-11-11T11:32:49","date_gmt":"2021-11-11T14:32:49","guid":{"rendered":"http:\/\/www.cronicasdeitarantim.com.br\/v1\/?p=143754"},"modified":"2021-11-11T11:38:01","modified_gmt":"2021-11-11T14:38:01","slug":"novembro-o-massacre-de-400-escravizados-que-define-o-mundo-romano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cronicasdeitarantim.com.br\/v1\/2021\/11\/11\/novembro-o-massacre-de-400-escravizados-que-define-o-mundo-romano\/","title":{"rendered":"NOVEMBRO] O massacre de 400 escravizados que define o mundo romano"},"content":{"rendered":"<h4 class=\"a_st\">A descoberta de um quarto em uma vila de Pompeia revela as condi\u00e7\u00f5es de vida de seres humanos que eram tratados como gado.<\/h4>\n<p>A Antiguidade\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/cultura\/2020-11-23\/os-mortos-de-pompeia-narram-a-vida-da-cidade-romana-destruida-pelo-vesuvio.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">era \u201cuma sociedade de escravos\u201d<\/a>, como definiu o influente historiador Moses Finley, na qual milh\u00f5es de pessoas n\u00e3o possu\u00edam absolutamente nada, n\u00e3o eram donas de sua vida nem de sua vontade. Podiam ser assassinados, violados, obrigados a trabalhar at\u00e9 a exaust\u00e3o e separados de suas fam\u00edlias. Viviam submetidos ao medo constante de serem vendidos ou maltratados, mas acima de tudo eram \u201cconsumidos pelo desejo de liberdade\u201d, escreve o professor de Berkeley Robert C. Knapp em seu cl\u00e1ssico ensaio\u00a0<i>Invisible Romans<\/i>\u00a0(Romanos invis\u00edveis, sem edi\u00e7\u00e3o no Brasil).<\/p>\n<p>A presen\u00e7a de pessoas escravizadas \u00e9 uma constante na literatura latina,\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2016\/10\/20\/cultura\/1476973040_431151.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">desde\u00a0<i>Sat\u00edricon<\/i><\/a>, de Petr\u00f4nio, a\u00a0<i>O asno de ouro<\/i>, de Apuleio. Pois bem, como Knapp explica, quase n\u00e3o h\u00e1 restos materiais, uma vez que praticamente n\u00e3o tinham posses. No entanto, a\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2020\/12\/26\/album\/1608994191_902666.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">equipe arqueol\u00f3gica de Pompeia<\/a>\u00a0anunciou no s\u00e1bado, 6 de novembro, a descoberta de um quarto que certamente era ocupado por essas pessoas. \u00c9 um espa\u00e7o de 16 metros quadrados com tr\u00eas camas e alguns objetos, na vila de Civita Giuliana, que ainda est\u00e1 em escava\u00e7\u00e3o, na cidade\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2015\/10\/09\/cultura\/1444410038_588923.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">soterrada pela erup\u00e7\u00e3o do Ves\u00favio<\/a>\u00a0no ano 79 da nossa era.<\/p>\n<p>O c\u00f4modo, que tinha apenas uma pequena janela na parte superior e carecia de decora\u00e7\u00e3o nas paredes, devia ser quarto e despensa ao mesmo tempo. Os objetos que cont\u00e9m, quando forem estudados, permitir\u00e3o conhecer melhor a vida cotidiana de seres humanos que representavam cerca de 15% da popula\u00e7\u00e3o, mas cuja contribui\u00e7\u00e3o para a economia era essencial. \u201cEmbora saibamos que os escravos foram explorados na maioria das sociedades\u201d, escreveu Finley, \u201chouve apenas\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/cultura\/2020-02-24\/hebert-s-klein-nas-sociedades-que-foram-escravistas-continua-existindo-racismo.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">cinco genu\u00ednas sociedades escravistas<\/a>, duas delas na Antiguidade: Gr\u00e9cia e Roma\u201d. As outras tr\u00eas s\u00e3o Estados Unidos, Caribe\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2020-05-13\/viver-como-escravo-depois-da-abolicao-pra-quem-nasceu-preto-a-escravidao-continuava-sendo-normal.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">e Brasil<\/a>.<\/p>\n<h3 class=\"\">Uma institui\u00e7\u00e3o cruel<\/h3>\n<p class=\"\">Nos anos cinquenta, Finley foi um dos primeiros historiadores a lan\u00e7ar luz sobre a profunda injusti\u00e7a que marca o mundo romano e que, at\u00e9 ent\u00e3o, s\u00f3 aparecia como pano de fundo. \u201cA vida de um escravo n\u00e3o era muito diferente da de um animal dom\u00e9stico\u201d, escreve o professor de estudos cl\u00e1ssicos de Cambridge Jerry Toner em\u00a0<i>Popular Culture in Ancient Rome<\/i>\u00a0(Cultura popular na Roma Antiga, sem edi\u00e7\u00e3o no Brasil). \u201cUma\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/cultura\/2020-07-30\/retorno-as-rotas-de-pessoas-escravizadas-que-forjaram-o-brasil.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">vida de trabalho duro, surras e comida escassa<\/a>, al\u00e9m de abusos sexuais,\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/cultura\/2021-09-28\/temendo-rebeliao-de-escravos-fazendeiros-tentaram-barrar-a-lei-do-ventre-livre.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">quase sem direitos<\/a>. Se tivessem de comparecer diante de um tribunal, mesmo como testemunhas, eram torturados para garantir que sua declara\u00e7\u00e3o era confi\u00e1vel. Submetidos a um regime embrutecedor, sua humilha\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica era total\u201d. Mesmo em uma sociedade brutal como a romana, a escravid\u00e3o era uma institui\u00e7\u00e3o especialmente cruel.<\/p>\n<p>Embora quase sempre realizassem os trabalhos mais duros e perigosos, nem todas as pessoas escravizadas viviam nas mesmas condi\u00e7\u00f5es \u2014n\u00e3o era a mesma coisa ser professor do que trabalhador em uma mina de sal ou uma escrava sexual\u2014 mas todos eram submetidos ao mart\u00edrio, n\u00e3o apenas f\u00edsico, mas tamb\u00e9m psicol\u00f3gico: eram obrigados a fazer o que seus senhores lhes ordenavam na hora em que o pediam. Mary Beard, professora de estudos cl\u00e1ssicos de Cambridge, escreveu o pref\u00e1cio do livro\u00a0<i>How to manage your slaves<\/i>, no qual um nobre romano chamado Marco Sid\u00f4nio Falco (na verdade o professor de estudos cl\u00e1ssicos Jerry Toner) explica como funciona um sistema baseado na servid\u00e3o, que\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/internacional\/2021-06-11\/violencia-do-colonialismo-abre-espaco-na-memoria-coletiva-da-europa.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">s\u00f3 podia se manter pela viol\u00eancia e pelo terror<\/a>.<\/p>\n<p>Nesse texto, a pesquisadora brit\u00e2nica lembra a dificuldade de compreender, no s\u00e9culo XXI, as rela\u00e7\u00f5es entre senhores e escravizados na Roma cl\u00e1ssica. \u201cEstavam preocupados\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/06\/25\/cultura\/1529917947_118147.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">com o que os escravos tramavam \u00e0s suas costas<\/a>. \u2018Todos os escravos s\u00e3o nossos inimigos\u2019, dizia um antigo lema que Falco conhecia bem\u201d, escreve Beard, que recorda uma hist\u00f3ria que resume a brutalidade com que Roma tratava seus servos: o assassinato das 400 pessoas escravizadas por L\u00facio Ped\u00e2nio Segundo, que T\u00e1cito aborda no livro XIV de seus Anais.<\/p>\n<h3 class=\"\">Deuses como testemunhas<\/h3>\n<p class=\"\">Ped\u00e2nio Segundo foi um prefeito de Roma que foi assassinado por um de seus servos\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2015\/12\/11\/cultura\/1449837567_576654.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">na \u00e9poca de Nero<\/a>, no s\u00e9culo I de nossa era. \u201cSegundo o antigo costume, era usual que todos os escravos que tivessem vivido sob o mesmo teto fossem levados ao supl\u00edcio\u201d, escreve o historiador T\u00e1cito (55-120) nos Anais. A ordem provocou grandes tumultos em Roma, certamente devido \u00e0 grande presen\u00e7a de libertos na popula\u00e7\u00e3o. Aconteceu uma discuss\u00e3o p\u00fablica a favor e contra o massacre, durante o qual Caio C\u00e1ssio Longino pronunciou um discurso que reflete perfeitamente a mentalidade de muitos romanos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s suas posses humanas.<\/p>\n<p>&#8220;Nossos antepassados desconfiavam da maneira de ser dos escravos\u201d, afirma T\u00e1cito em sua cr\u00f4nica, \u201capesar de estes nascerem nos mesmos campos e casas que eles e receberem imediatamente o carinho dos seus senhores. Pois bem, uma vez que temos em nossas fam\u00edlias de escravos na\u00e7\u00f5es com diferentes ritos, com religi\u00f5es estrangeiras ou carentes delas, toda essa bagun\u00e7a n\u00e3o pode ser reprimida\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/cultura\/2020-01-31\/traumas-e-consequencias-da-escravidao-tomam-o-foco-do-cinema-nacional.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">a n\u00e3o ser com medo<\/a>. \u00c9 verdade que alguns inocentes morrer\u00e3o. Mas quando um em cada dez de um ex\u00e9rcito que fugiu \u00e9 espancado at\u00e9 a morte, os corajosos tamb\u00e9m entram na loteria. Todo grande castigo tem algo de injusto, mas o que vai contra cada um em particular \u00e9 compensado pelo interesse geral\u201d.<\/p>\n<p>A execu\u00e7\u00e3o foi confirmada, mas n\u00e3o podia ser realizada porque a multid\u00e3o impedia a passagem das v\u00edtimas at\u00e9 o pat\u00edbulo. O imperador Nero, indignado, mobilizou suas tropas para permitir que o massacre fosse levado a cabo. Esse horror lembra o final do filme\u00a0<i>Spartacus<\/i>, de Stanley Kubrick, baseado em um romance de Howard Fast, quando todos os que participaram da rebeli\u00e3o s\u00e3o crucificados na via \u00c1pia por se recusarem a delatar seu chefe:\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/cultura\/2020-02-06\/kirk-douglas-o-ator-que-imortalizou-o-grito-de-spartacus-nas-paginas-da-historia-de-hollywood.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">o famoso \u201cEu sou Spartacus\u201d<\/a>, que impede que o l\u00edder revolucion\u00e1rio seja localizado.<\/p>\n<p>Naquele mundo cruel, que n\u00e3o mudou com a chegada do cristianismo \u2014S\u00e3o Paulo dizia na ep\u00edstola aos Colossenses: \u201cServos, obedecei em tudo a vossos senhores da Terra\u201d\u2014, a solidariedade tamb\u00e9m existia. \u201cMuitas provas de ajuda m\u00fatua e amizade entre escravos chegaram at\u00e9 n\u00f3s\u201d, escreveu Knapp em\u00a0<i>Invisible Romans<\/i>. \u201cEm circunst\u00e2ncias normais, seja em uma casa-grande, em um recinto menor ou no \u00e2mbito rural, os escravos [de Roma] criavam v\u00ednculos e estabeleciam rela\u00e7\u00f5es que davam sentido \u00e0s suas vidas, apesar da inseguran\u00e7a e da brutalidade\u201d, prossegue este professor em\u00e9rito de Hist\u00f3ria Antiga da Universidade de Berkeley.<\/p>\n<p>Knapp lembra uma inscri\u00e7\u00e3o que relata a amizade entre duas pessoas escravizadas que acabaram como libertos: \u201cEntre voc\u00ea e eu, meu mais apreciado companheiro, nunca houve disputa alguma. Com esta inscri\u00e7\u00e3o quero tamb\u00e9m que os deuses de cima e de baixo sejam testemunhas de que voc\u00ea e eu, comprados como escravos ao mesmo tempo na mesma casa, fomos libertados juntos.\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2021\/04\/15\/album\/1618511169_149694.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">N\u00e3o estivemos separados em nenhum dia<\/a>\u00a0at\u00e9 o dia de sua fat\u00eddica morte\u201d.<\/p>\n<p>*Artigo do jornalista e escritor Guillermo Altares<\/p>\n<p>Foto: quarto que era usado pelos escravizados que foi descoberto na semana passada na cidade de Pompeia, hoje Pompeia \u00e9 um s\u00edtio arqueol\u00f3gico localizado no sul da It\u00e1lia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A descoberta de um quarto em uma vila de Pompeia revela as condi\u00e7\u00f5es de vida de seres humanos que eram tratados como gado. A Antiguidade\u00a0era \u201cuma sociedade de escravos\u201d, como definiu o influente historiador Moses Finley, na qual milh\u00f5es de pessoas n\u00e3o possu\u00edam absolutamente nada, n\u00e3o eram donas de sua vida nem de sua vontade. Podiam ser assassinados, violados, obrigados a trabalhar at\u00e9 a exaust\u00e3o e separados de suas fam\u00edlias. Viviam submetidos ao medo constante de serem vendidos ou maltratados, mas acima de tudo eram \u201cconsumidos pelo desejo de liberdade\u201d, escreve o professor de Berkeley Robert C. 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